Hoje, durante minha tradicional caminhada de 15 minutos entre a estação de trem e o escritório, fui surpreendido por uma daquelas cenas que fazem a gente ficar encarando o teto na hora de dormir.
Esses 15 minutos costumam ser meu momento de reflexão. Vou pensando na vida, nas decisões que tomei e em como cheguei até aqui. Hoje estou numa situação confortável: posso ir trabalhar de trem ou de carro próprio, quitado. Coisa que o meu "eu" adolescente consideraria praticamente o mesmo status de um bilionário.
Mas essa história não é sobre mim.
Ou melhor... é um pouco.
No ensino médio, eu era aquele cara que hoje seria descrito como "introvertido". Na época o diagnóstico era mais simples: estranho mesmo.
Sofria bullying, era alvo fácil de zoação e tinha aproximadamente o mesmo prestígio social de uma cadeira quebrada esquecida no fundo da sala.
Como todo adolescente sem noção, me apaixonei justamente pela menina mais bonita da turma.
Ela era simplesmente a celebridade local. Bonita, inteligente, carismática, popular e aparentemente destinada ao sucesso. Antes mesmo de terminar o último ano já tinha conseguido bolsa na PUC. Os professores adoravam. Os alunos adoravam. Provavelmente até o porteiro adorava.
Eu? Eu mal conseguia conversar com ela.
E, quando conseguia, era tratado com o mesmo entusiasmo de alguém que encontra uma barata dentro do armário da cozinha.
Depois da formatura, a vida aconteceu.
Perdi contato com praticamente todo mundo.
Fiz uma faculdade sem grife, estudei inglês sozinho, me especializei na minha área e fui construindo minha carreira um passo de cada vez. Nada muito cinematográfico. Sem herança, sem bilhete premiado e sem coach dizendo que eu era um tubarão.
No fim das contas, deu certo.
Casei com uma mulher incrível, compramos nosso apartamento, nosso carro, tivemos uma filha maravilhosa e hoje tenho uma vida muito melhor do que poderia imaginar naquela época.
E então voltamos para a caminhada.
Quando saí da estação, vi uma mulher vendendo bolo de pote.
Antes que alguém entenda errado: não há absolutamente nada de indigno em vender bolo de pote, trabalhar na rua ou correr atrás do sustento de forma honesta. Trabalho é trabalho e merece respeito.
Mas aí eu reconheci quem era.
Era ela.
A menina mais popular, bonita e promissora da escola.
Demorei alguns segundos para acreditar. O tempo parecia ter passado de um jeito muito diferente para nós dois. Ela estava com aparência cansada, abatida e parecia carregar nas costas uma quantidade considerável de pancadas da vida.
Toda aquela aura de futura CEO, ministra da economia, astronauta ou seja lá qual era o cargo que imaginávamos para ela simplesmente tinha desaparecido.
E isso ficou martelando na minha cabeça durante o resto do caminho.
Porque a questão não era ela estar vendendo bolo.
A questão era o contraste.
Naquela época, se alguém pedisse para a turma apostar quem teria mais sucesso profissional, eu estaria provavelmente na última posição, disputando com o cara que repetiu de ano duas vezes.
Ela estaria em primeiro lugar por unanimidade.
Então comecei a me fazer algumas perguntas:
- Em que momento a história dela mudou de direção?
- Será que o karma existe mesmo?
- Ou a vida simplesmente adora ignorar todos os roteiros que a gente escreve para ela?
No final, cheguei à conclusão de que a maior lição não tinha nada a ver com ela.
Tinha a ver com perspectiva.
Quando estamos na pior fase da vida, parece que aquilo nunca vai acabar.
Quando estamos na melhor fase da vida, parece que aquilo vai durar para sempre.
E as duas coisas normalmente estão erradas.
O garoto tímido e zoado do ensino médio jamais imaginaria a vida que teria anos depois.
E a garota que parecia destinada a conquistar o mundo talvez também não imaginasse onde estaria.
A vida é estranhamente imprevisível.
Por isso, se você estiver numa fase ruim, continue andando.
E se estiver numa fase boa, aproveite e continue andando também.
Porque, pelo visto, ninguém faz ideia do que encontra na próxima esquina. E a vida adora lembrar disso quando a gente menos espera.